2001
Travailler
Autre regard
« Quam artem exerceas ? »
Leda Leal Ferreira
Médica, Doutora em Ergonomia, Fundacentro, Brasil
Bernardino Ramazini (1633-1714) é considerado « o pai da Medicina do Trabalho ». Para comemorar os trezentos anos de seu clássico De morbis artificum diatriba (As Doenças dos Trabalhadores) o artigo começa com um breve relato de seu conteúdo e termina com um convite à reflexão sobre o famoso conselho de Ramazzini aos seus colegas médicos : acrescentar a pergunta quam artem exerceas ? (que trabalho faz ?) na anamnese dos pacientes. A proposta é a de se perguntar por que este conselho continua a não ser seguido pelos médicos e para isto, são apresentadas algumas pistas de respostas.
Bernardino Ramazzini (1633-1714) est connu comme « le père de la médecine du travail ». Pour rendre hommage aux trois cents ans de la publication de son chef-d’Å“uvre De morbis artificum diatriba (Les maladies des travailleurs), l’article commence par un bref récit de son contenu et finit par une invitation à la réflexion sur son célèbre conseil à ses collègues médecins : ajouter la question « quam artem exerceas ? » (« quel travail faites-vous ? ») lors de l’anamnèse des malades. L’auteur propose qu’on réfléchisse sur les raisons pour lesquelles les médecins continuent à ne pas suivre ce conseil et esquisse quelques pistes de réponse.
Bernardino Ramazzini (1633-1714) is known as « the father of industrial medicine ». In order to pay tribute to the three hundred years of the publication of his masterpiece De morbis artificum diatriba (The illnesses of workers), the article begins with a brief narration of its content and finishes with a thought-provoking on his famous counsel to his doctors colleagues : adding the question « quam artem exerceas ? » (« what work do you do ? ») when doing the anamnesis of the sick. The author suggests to think on the reasons why the doctors keep on not following this counsel and outlines a few tracks of answer.
Bernardino Ramazzini (1633-1714) es conocido como el padre de la Medicina del Trabajo. Para homenajear los trescientos años de la publicación de su obra de arte De morbis artificum diatriba (Las enfermedades de los trabajadores) este artículo comienza con un breve resumen de su contenido y termina con una invitación a la reflexión sobre su célebre consejo a los colegas médicos : el de añadir la pregunta ¿quam artem exerceas ? (¿cuál es su trabajo ?) en el cuestionario de los enfermos. El autor propone que se analicen las razones por las cuales los médicos no siguen este consejo y esboza algunas pistas para comprenderlas.
Comemora-se este ano o tricentenário da publicação de uma obra de referência :
De morbis artificum diatriba (As doenças dos trabalhadores), de Bernardino Ramazzini. É o primeiro tratado sistemático de patologia do trabalho. Publicado em Modena, em 1700, teve sucessivas reedições, em várias línguas
[1].
Nem as traduções nem as edições são uniformes. As mais completas edições atuais apresentam os cinquenta e um capítulos publicados na 1 edição de 1700 acrescentados do « suplemento » de mais doze, da considerada edição definitiva de 1713, cada um deles dedicado a uma profissão ou a um grupo de profissões
[2]. Assim, praticamente toda a atividade produtiva da cidade de Modena nos fins do século
xvii que, em geral, correspondia a da Itália setentrional, é representada. Cada capítulo tem a mesma estrutura : começa por uma descrição da tecnologia, seguida pelo exame clínico do trabalhador. Em seguida, traz referências bibliográficas sobre o assunto e faz uma discussão da terapia. Termina com propostas de normas de vida e de trabalho, particulares e gerais.
É indiscutível o valor histórico da obra. Para os estudiosos do trabalho, traz informações preciosas sobre como e em que condições eram realizadas as principais atividades produtivas da época. É por isso que foi citada tanto por Adam Smith quanto por Karl Marx. Para os estudiosos da medicina, apresenta o pensamento de uma figura de destaque. Quando publicou o livro, Bernardino Ramazzini acabava de ser convidado a exercer uma das cátedras de Medicina na famosa e prestigiada Universidade de Pádova, de Copérnico e Galileu Galilei. Tinha 67 anos e uma história cheia de realizações : formado em filosofia e medicina em Parma, já tinha exercido por mais de quarenta anos a prática médica, cuidando de nobres e príncipes, exercido por dezoito anos a cátedra de medicina na Universidade de Modena, polemizado com outros colegas, escrito poemas e numerosos textos científicos
[3].
Mas além do valor histórico, a obra contém elementos de extrema atualidade. Algumas das profissões descritas ainda existem e os trabalhadores que as exercem sofrem dos mesmos transtornos que os seus antigos colegas modenenses. Além disso, a estrutura dos capítulos é criativa, didática e de fácil leitura. Mas o que é mais interessante é a atualidade das críticas que Ramazzini fazia a seus colegas médicos. Escrevia ele na introdução do livro : « O médico que é chamado a curar um trabalhador não deve, como faz habitualmente, tomar-lhe imediatamente o pulso, sem antes informar-se de suas condições ; nem deve sentenciar sobre o que fazer, apressadamente : como faz o juiz, o médico deve sentar-se, até num banco, quando não encontrar uma cadeira dourada como na casa dos ricos. Deve falar afavelmente com o doente e saber decidir quando é necessário darlhe um conselho ou apenas ter uma atitude de compreensão e de piedade ».
Com quanta propriedade esta crítica de Ramazzini ao comportamento dos médicos diante de pacientes trabalhadores se aplica hoje ! Aliás, ele vai além ao afirmar que « não se sentiu diminuído quando entrava nas mais modestas oficinas, para observar as características do trabalho manual » dos trabalhadores de quem cuidava.
Mas suas críticas não se limitavam ao comportamento ideológico ou moral dos médicos : colocavam em questão a própria eficácia de sua conduta. Dizia ele : « Muitas são as perguntas que o médico deve fazer ao doente ou a seus acompanhantes. Hipócrates, no seu De Affectionibus, diz : « quando estiveres frente a um doente deves perguntar-lhe do que sofre, qual o motivo, há quantos dias, se evacua e o que come ». A todas estas perguntas deve acrescentar uma outra : « Quam artem exerceas ? » (« que trabalho faz ? »). Quando o doente pertence ao povo, esta pergunta é importante, até necessária, quanto mais não seja para especificar a causa da sua doença. Mas, na prática, raramente o médico a faz. Mesmo quando, por um motivo qualquer, tem conhecimento do tipo de trabalho realizado pelo doente, o médico não o leva em conta, comprometendo assim a eficácia da cura. »
A meu ver, esta é a lição mais importante de Ramazzini : ao ignorar o trabalho de seus pacientes, o médico não consegue curá-lo, ou seja, tem a sua prática comprometida. Daí a importância decisiva de incorporar, na anamnese, a sua famosa pergunta : « Que trabalho faz ? »
Todos os que trabalham neste vasto e pouco limitado campo que é o do estudo das relações entre doenças e trabalho sabem que as críticas e os conselhos de Ramazzini permanecem válidos. Por isso, a comemoração dos 300 anos de De morbis artificum diatriba é um bom convite para ler ou reler seu livro. Mas pode também ser um convite para refletir sobre o que ele dizia e, sobretudo, sobre o porquê de, em nossos dias, a pergunta « quam artem exerceas » ainda não estar incorporada na prática médica. Para abrir esta reflexão, proponho três pistas.
Uma primeira pista : a pergunta não é feita porque não foi ensinada aos médicos. E não foi ensinada porque, no desenvolvimento da medicina, a categoria produção, própria do mundo do trabalho, foi sempre preterida pela categoria consumo, própria do mundo da reprodução. Seja na prática da saúde pública, seja na prática da medicina individual, o que se procura são relações entre itens de consumo (ou não consumo) e determinadas doenças ou sintomas de doenças. Assim é que nas anamneses individuais ou nos inquéritos de populações, abundam questões sobre o consumo individual de bens (alimentar, de bebidas alcoólicas, de cigarros), ou o consumo de serviços de estratos de população, em geral agrupados por nível de renda e, portanto, também relacionados com a possibilidade de consumo. A pergunta norteadora é muito mais « o que você tem » (ou não tem) do que « o que você faz » (ou não faz). E mesmo quando se preocupa com o fazer dos indvíduos, se pensa num fazer extra- trabalho : hábitos de lazer, hábitos familiares ou, no máximo, hábitos sociais.
Um outro tipo de abordagem diz respeito ao « enclausuramento » do estudo das relações entre trabalho e doenças dentro de disciplinas especializadas (do ponto de vista acadêmico) e de instituições específicas (do ponto de vista prático). O modelo que se segue é o de que o estudo das relações entre doenças e trabalho é uma especialidade da medicina (aliás, uma das mais marginais, a se considerar o tempo a ela dedicada nos cursos médicos) e não uma disciplina de caráter geral, difusa por toda a prática médica. Este modelo é coerente não só com o que já falamos como também com o mercado de trabalho. A « medicina do trabalho » atual forma médicos para atuarem num quadro institucional bem estrito : dentro das empresas (o maior contingente) ou dentro de organismos governamentais de fiscalização e controle.
Dentro das empresas, a medicina do trabalho existe por força de constrangimentos, geralmente impostos por legislações. Não é uma escolha das empresas. Como mal necessário, o comportamento das empresas passa a ser o de tirar o máximo de proveito deste constrangimento ou, pelo menos, não ser muito prejudicado por ele. Assim, a prática dos médicos é limitada, quando não totalmente desviada : em vez de ser uma prática de promoção a saúde torna-se uma prática de seleção de mão de obra ou uma atividade burocrática. A mesma opacidade sobre o que acontece com os trabalhadores dentro das empresas- que são as instituições mais fechadas e protegidas dos olhos públicos- é a opacidade da prática da medicina do trabalho. Nos órgãos governamentais, por força das mesmas injunções legais, a prática do médicos do trabalho torna-se muito mais disciplinadora e fiscalizadora do que propriamente uma prática clínica ou prevencionista.
Finalmente, a terceira pista. A pergunta « o que você faz no seu trabalho ? » é uma pergunta difícil, tanto para o médico que a faz quanto para o paciente que a responde.
Por parte do médico, ela pressupõe disponibilidade- de espírito e de tempo- para ouvir e compreender o paciente (a não ser quando é feita burocraticamente, apenas para preencher campos de formulários). Nenhuma destas qualidades é estimulada ou mesmo prezada atualmente na prática médica, invadida por critérios de produtividade (como qualque atividade industrial), atordoada pelos avanços tecnológicos disponíveis e enfeitiçada por modelos científicos de causalidade simples e soluções rápidas. Por parte do paciente, a pergunta é difícil de ser respondida e pode provocar respostas tão genéricas que não contribuam muito para o esclarecimento da questão.
É apenas quando se instaura um verdadeiro diálogo entre médico e paciente que a questão pode começar a ser respondida e adquirir algum sentido. Este diálogo, porém, é difícil. Além das limitações de tempo, pressupõe uma relação de confiança mútua, o que não é comum nem por parte do médico nem do paciente. Pressupõe em seguida um « roteiro » de perguntas, que depende do modelo mental e ideológico que o médico tem a respeito da influência do trabalho na doença. Este modelo é, em geral, o de « fatores de risco », que privilegia muito mais o ambiente físico do trabalho do que a atividade exercida pelo trabalhador. E mesmo quando o médico tem desejos e vontade de conhecer o mundo do trabalho do paciente, e examinar a sua atividade rotineira, vai encontrar grandes dificuldades : trata-se de um mundo complexo e desconhecido, apresentado pelo paciente através de uma língua específica, que necessita de tradução e interpretação. A não ser em casos muito específicos, relacionados, por exemplo, com a exposição a um determinado composto químico cuja toxicidade é também conhecida, as relações entre trabalho e doença não são imediatas e diretas, mas mediadas, com muitos elos intermediários.
Há muitas outras reflexões a se fazer em torno da questão do por quê o « Quam artem exerceas ? » permanecer longe da prática médica atual e este artigo é, de certa forma, um convite para este exercício. A Psicodinâmica do Trabalho, por exemplo, tem buscado respostas para ela, mesmo que implicitamente. Aliás, é um dos campos atuais que mais tem se preocupado em entender a dinâmica entre trabalho e doenças e, sobretudo entre trabalho e saúde, que são coisas bastantes diferentes. Deste ponto de vista, me parece que é a disciplina que mais tem levado a sério os conselhos, tão esquecidos em geral, de Ramazzini.
·
Bernardino Rammazzini. Le malattie dei lavoratori (de morbis artificum diatriba), a cura de Francesco Carnevale. (traduzione sulla edizione padovana de 1713 a cura de Ines e Vittorio Romano e Francesco Carnevale.) 1 edizione, Roma, La Nuova Italia Scientifica, 1982.
·
Bernardino Rammazzini. La salute dei principi ovvero come difendersi dalle malattie e daí medici, a cura de Francesco Carnevale (traduzione dal latino di Francesco Carnevale, Maria Mendini e Goffredo Traquanti). Firenze, Editoriale Tosca, 1992.
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Bernardino Rammazzini. As doenças dos trabalhadores. Tradução brasileira do De morbis Artificum Diatriba. Tradução de Raimundo Estrela. São Paulo, Fundacentro, 1992.
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S.-A. Tissot. De la santé des gens de lettres. Préface de Christophe Dejours, Alexitère Éditions, 1991.
[1]
Numa resenha das primeiras edições e traduções do livro, Francesco Carnevale cita que, já em 1705, houve uma tradução em alemão (Leipzig) e outra em inglês (Londres) ; em 1724, uma tradução em holandês (Leiden) e em 1740 uma tradução parcial em francês (Paris). Várias reedições foram feitas nessas várias línguas e ainda em espanhol, português e russo.
[2]
Doenças dos mineiros ; douradores ; massagistas ; químicos ; oleiros ; estanhadores ; vidraceiros e fabricantes de espelhos ; pintores ; dos que trabalham com enxofre ; ferreiros ; gesseiros e caleiros ; farmacêuticos ; cloaqueiros ; pisoeiros ; azeiteiros, curtidores, queijeiros e outros ofícios imundos ; trabalhadores de fumo ; coveiros ; parteiras ; nutrizes ; vinhateiros, cervejeiros e destiladores ; padeiros e moleiros ; fabricantes de amido ; peneiradores e medidores de cereais ; lapidários, estatuários e britadores ; lavadeiras ; cardadores de linho, cânhamo e seda ; banhistas ; salineiros ; dos que trabalham em pé ; dos operários sedentários ; dos judeus ; corredores ; cavaleiros ; carregadores ; atletas ; dos que trabalham com objetos pequenos ; mestres de dicção, cantores e outros desse gênero ; agricultores ; pescadores ; dos militares ; pedreiros ; literatos ; tipógrafos ; escribas e notários ; confeiteiros ; tecelões ; bronzistas ; carpinteiros ; amoladores ; ladrilheiros ; poceiros ; marinheiros e remeiros ; caçadores ; saboeiros.
[3]
Tinha escrito, por exemplo,
Costituzioni epidemiche, de grande difusão pela Europa. Nele construiu um mapa de fatores de risco para a cidade de Modena, com considerações sobre o clima, as culturas e os trabalhos dos habitantes. Dizia que o progresso da medicina estava relacionado com a observação dos fenômenos e insistia na necessidade de prevenir as doenças, uma vez que a sua cura quase nunca era completa. Na mesma linha, advogava a importância da medicina pública, de iniciativa do Estado, dizendo que a classe dirigente teria interesses materiais em evitar que as classes subalternas adoecessem de certas doenças. Mas ainda não tinha escrito
« La salute dei principi… », que só apareceu em 1710. Esta última, aliás, aborda problemas semelhantes aos abordados por Tissot, em seu
« De la santé des gens de lettres », de 1768.